Início | O Grupo | Discografia | CantoMaior | Perspectivas | PalavrasAmigas | Testemunhos | Notícias | ÁlbumFamília | Agenda. | Contactos |


Vítor Reino

 

 

 

.
Início > Perspectivas > Estremadura
Estremadura

A ideia apriorística de que o folclore da Estremadura, por força da influência cul­turalmente aglutinadora da capital, não podia deixar de ser essencialmente pobre e incaracterístico foi completa e definitivamente desmentida graças aos perseverantes esforços e continuados trabalhos de campo de José Alberto Sardinha, autor que citare­mos ao longo do presente texto.

Depois de pôr a descoberto toda uma tradição musical estremenha duma riqueza e vitalidade insuspeitas, José Alberto Sardinha verificou “a diminuta percentagem de música vocal, individual tanto como colectiva, em relação à música instrumental (...), facto que ficará a dever-se a um menor gosto ou aptidão do seu povo pelo canto”, bem como à sua enorme inclinação para a dança.

Os instrumentos predominantes vão da primitiva palheta, flauta, ocarina e gaita-de-foles, à importantíssima guitarra portuguesa e, sobretudo, ao harmónio diatónico de uma carreira, “que conheceu na Estremadura um favor que não apurámos em nenhuma outra província”.

O Verde-Gaio, a Valsa de Dois Passos e, principalmente, o Fandango, “que o estremenho baila com tanta agilidade e garbo como o ribatejano”, assumem um especial lugar de destaque entre as inúmeras danças bailadas na região. De quase certa proveniência espanhola, o Fandango gozava já no século XVIII do favor entusiástico dos portugueses, como atestam diversos documentos da época. Dança de galanteio e sedução por excelência, o seu primitivo carácter marcadamente sensual e mesmo quase obsceno evoluiu no sentido de uma pura demonstração de “agilidade e exibicionismo”.

“Erroneamente tido por ribatejano, o Fandango é uma dança disseminada por todo o país, de Norte a Sul, e naturalmente também entre o povo estremenho, que lhe dedica uma estima que nada fica a dever aos da borda d'água.” Embora a forma musical e coreográfica do Fandango estremenho seja idêntica à conhecida no Ribatejo, a sua riqueza e variedade são notoriamente superiores, como demonstra o Fandango ao Desafio gravado pelo Maio Moço, em que integrámos três espécimes distintos, todos recolhidos por José Alberto Sardinha. O primeiro, originalmente tocado em guitarra portuguesa, funciona como refrão e serve de suporte a todo o tema, sendo apenas de nossa autoria a parte de flauta; o segundo, recolhido com acompanhamento de harmónio, constitui a sua parte central; o último, que encerra a canção, duma fascinante e rara graciosidade, é, de acordo com a recolha original, confiado ao bandolim.

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

.