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Vítor Reino

 

 

 

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Açores

O folclore dos Açores é, de todo o país, aquele que, em nosso entender, se apresenta hoje como um todo musical de características mais vincadamente próprias e inconfundíveis, facto para o qual terão porventura contribuído diferentes ordens de factores.

Como assinala José Homem Machado, “as ilhas dos Açores, pelo seu isolamento, conservam ainda costumes e tradições, introduzidos pelos primeiros povoadores continentais e que, lá no continente, ou já não existem, ou se modificaram por influências várias”. Não esqueçamos, por outro lado, que o povoamento do Arquipélago envolveu, para além de portugueses provenientes de diversas províncias, uma grande heterogeneidade de nacionalidades e raças – europeus (flamengos, alemães e outros), judeus, mouros e negros, o que originou inevitavelmente uma rica e fecunda interacção cultural de importância não despicienda.

Dir-se-ia que da música dos Açores emana um sentimento nostálgico, dolente e repousado, simultaneamente alegre e melancólico, comunicativo e introvertido, a que o carácter insular não será certamente alheio. Afigura-se-nos, ainda, que a tradição musical desta região é a mais fortemente ritualizada de todo o país, objecto de uma atitude peculiar de reverência quase cerimo­nial que parece transcender e isolar os lugares e momentos em que se pratica relativamente às regras do restante espaço-tempo quotidiano.

Belo e harmonioso na música como na poesia, ao mesmo tempo genuinamente local e inconfundivelmente nacional. o folclore açoriano espraia-se por múltiplas formas e manifestações, de que não podemos deixar de salientar os invulgares cantos de Janeiras, Reis e Estrelas, e, principalmente, as interessantíssimas “Folias do Divino Espírito Santo” de cunho e sabor tão especiais.

De entre as suas inúmeras danças (ou “balhos”), igualmente ricas e variadas, lembramos apenas a Chamarrita, a Charamba, a Fofa, o Pezinho, a Sapateia, a Saudade e a Bela Aurora, de que o Maio Moço escolheu uma das muitas variantes.

O arranjo musical do tema procura realçar a sonoridade surpreendentemente fascinante do mais importante e característico instrumento da região, a inconfundível viola da terra que, segundo Ernesto Veiga de Oliveira, “pertence à mais velha tradição musical do Arquipélago, para onde foi sem dúvida levada logo pelos seus primeiros povoadores” e a respeito de cuja antiga importância o Tenente Francisco José Dias afirma que “fazia parte dos móveis domésticos de mais de cinquenta por cento dos casamentos”. A variedade terceirense que utilizamos possui seis ordens e um total de quinze cordas, enquanto a modalidade mais geral arma como a viola toeira de Coimbra.

O nosso arranjo privilegia ainda o violino, ou antiga rabeca, igualmente objecto do carinho especial das gentes dos Açores, para o qual compusemos uma parte instrumental inspirada em velhos trechos da música local.

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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