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Vítor Reino

 

 

 

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Alto Alentejo

A tradição musical do Alto Alentejo é, em nossa opinião, uma das mais genuina­mente interessantes e infelizmente menos estudadas de todo o país. Constituindo etnomusicalmente o prolongamento natural da Beira Baixa, esta província prodigaliza-nos, na verdade, um folclore abundante e diversificado que chega a atingir manifestações de uma beleza e requinte admiráveis e quase sublimes, tanto no domínio instrumental como no plano vocal, com melodias quentes e invulgarmente fascinantes, não raro de tipo modal.

As famosíssimas Saias representam, contudo, a faceta sem dúvida mais conhecida da tradição musical do Alto Alentejo. Remontando pelo menos ao século XVII, as Saias constituem indiscutivelmente uma das mais belas e características danças populares portuguesas, podendo ser bailadas ao som da pandeireta, do pandeiro, ou de pandeiro e adufe, muitas vezes coadjuvados pelas típicas castanholas ou tracanholas, que lhes emprestam um sabor muito especial.

A importância das Saias extravasa largamente a sua natureza coreográfica, assumindo frequentemente a forma de autênticas “modas ao despique”, o que sucede, nomeadamente, no decurso de trabalhos agrícolas como a apanha da azeitona. A abundância assombrosa de estilos (melodias) diferentes de Saias não impediu que elas se revestissem de uma clara identidade própria, com uma riqueza e especificidade musical de tal ordem que se constituem actualmente como um verdadeiro género tradicional autónomo, apreciado e cultivado por cantores e autores populares que chegam a compor “à maneira das Saias”.

As Saias de Nisa gravadas pelo Maio Moço ilustram maravilhosamente as características fundamentais deste género musical, com um arranjo que procura respeitar fielmente a estrutura típica da canção, a que acrescentámos um refrão instrumental baseado numa velha valsa campestre recolhida na mesma região.

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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