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Vítor Reino

 

 

 

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Beira Baixa

A Beira Baixa constitui, sem margem para dúvidas, uma das províncias mais férteis (senão porventura a mais fértil) em espécimes musicais tradicionais, que nos sur­preendem desde logo pela riqueza incomparável e incrível variedade musical e temática das suas formas e manifestações. Já em 1947 o saudoso maestro Fernando Lopes Graça, reportando-se às zonas circunvizinhas de Castelo Branco e do Fundão, obser­va explicitamente, apoiando, aliás, o ponto de vista de insignes especialistas como Rodney Gallop e António Joyce, que se trata de “um dos mais ricos e característicos depósitos da canção popular portuguesa”, chamando a atenção para a urgente necessidade de explorar convenientemente os aspectos mais significativos da sua “abundante e variadíssima flora musical”.

Na verdade, encontram-se ali, ainda hoje, nomeadamente, velhos romances e cantos religiosos e de trabalho vazados nos chamados “modos arcaicos”, exemplares raríssimos de canções de um estranho e peculiar modalismo cromatizante, eivadas de exotismos primitivos e de filiação ancestral, bem como uma admirável profusão de espécimes polifónicos plenos de cor e vitalidade.

Dir-se-ia que da tradição musical da Beira Baixa emana como que um fluido emocional muito particular ou uma certa característica quase indefinível que a torna desde logo facilmente identificável face ao restante folclore português!... Esse “não-sei-quê” de quase telúrico e misticamente transcendental ressalta nitidamente da belíssima Moda de Adufe gravada pelo Maio Moço, para a qual criámos um arranjo em que a solene e mágica sonoridade das velhas violas portuguesas se cruza com os bandolins e o acordeão, que protagonizam um diálogo de timbres e ambiências musicais no refrão que para eles compusemos.

Como não poderia deixar de ser, atribuímos um papel predominante ao adufe, esse singelo e gracioso instrumento de remota e indiscutível antiguidade que, por excelência, simboliza o folclore musical da Beira Baixa. Confiado exclusivamente ao cuidado especial de mãos femininas, elas operam com ele verdadeiros prodígios de arte e relação simbiótica, arrancando-lhe surpreendentes cambiantes sonoras e conferindo­lhe recursos rítmicos magistrais e insuspeitados...

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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