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Vítor Reino

 

 

 

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Douro Litoral

O verdadeiro carácter das gentes durienses revela-se principalmente nas velhas e populares canções coreográficas alegres e sensuais, de cunho amoroso ou satírico, entre as quais é forçoso salientar a inconfundível Chula, o Vira, a Cana-Verde e o Malhão.

Permanecendo ainda para a generalidade das pessoas como um dos menos con­hecidos e documentados do país, o folclore do Douro Litoral revelou-se-nos em toda a sua identidade e especificidade a partir dos valiosos estudos e trabalhos de campo de José Alberto Sardinha.

A primeira característica da tradição musical desta província a despertar a nossa atenção, e já de certo modo evidenciada nos cancioneiros de Arouca, Cinfães e Resende de Vergílio Pereira, prende-se com a enorme abundância de formas vocais de estrutura polifónica marcadamente arcaica, as tão peculiares “cantas” e “cramóis”, cuja origem remonta provavelmente ao canto litúrgico medieval.

No que respeita à música instrumental e coreográfica, há que assinalar a presença de um impressionante conjunto de danças de salão de proveniência europeia (con­tradanças, quadrilhas, valsas, polcas, mazurcas, etc.) que, existindo embora um pouco por todo o país, assumem aqui um estatuto e importância absolutamente únicos, cir­cunstância porventura atribuível à longa permanência na zona das tropas invasoras de Napoleão.

Entretanto, o verdadeiro carácter das gentes durienses revela-se principalmente nas velhas e populares canções coreográficas alegres e sensuais, de cunho amoroso ou satírico, entre as quais é forçoso salientar a inconfundível Chula, o Vira, a Cana-Verde e o Malhão. À guisa de curiosidade, já César das Neves e Gualdino de Campos, em pleno século XIX, se referem ao antigo Malhão como dança campestre do distrito do Porto, acrescentando que, levado para a cidade, aí terá assumido uma feição lúbrica “nas orgias e bacanais do povo rude”, e especulando quanto à sua possível paternidade relativamente ao Fado, de que assinalam o paralelo na dança: “Dois indivíduos frente a frente, afastam-se e aproximam-se em requebros e trejeitos dando, amiudadas vezes, pançadas e sapateados em ritmo binário”.

No arranjo musical do invulgarmente gracioso Malhão Brejeiro do Maio Moço, cujo refrão e demais partes instrumentais intermédias são inteiramente de nossa autoria, atribuímos um lugar central à característica viola portuguesa, nas suas duas modalidades regionais nortenhas – a viola braguesa ou minhota, geralmente com boca em forma de raia, e a viola amarantina ou de dois corações, das quais conhecemos cerca de dez afinações distintas. Apresentando ambas cinco ordens de cordas duplas e tocando-se essencialmente de “rasgado”, possuem um timbre prodigiosamente versátil e vibrante, de multifacetados recursos.
 

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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