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Vítor Reino

 

 

 

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Madeira

Para além de preciosas canções de trabalho, belos cantos religiosos e um vastíssimo romanceiro, o folclore madeirense, de inegável antiguidade e autenticidade e repleto de val­ores locais, apresenta três géneros fundamentais bem característicos:

O Charamba – De origem remota, constitui, para alguns, a mais importante e significativa manifestação musical da Madeira, sendo geralmente cantado ao despique por diversos solistas;

A Mourisca – De sabor exótico e primitivo, conheceu uma enorme popularidade até meados do século XVII e encontra-se hoje em vias de extinção (o seu ritmo marcava frequentemente o andamento dos camponeses a caminho de festas e romarias);

O Bailinho – De cariz extremamente vivo e alegre, com numerosas versões distintas, constitui o género mais querido e mais amplamente cultivado pelo povo madeirense, que ainda hoje o toca um pouco por toda a parte.

Estes três géneros musicais, de estilo definido, único e inconfundivelmente madeirense, expandem-se por toda a ilha e são acompanhados por outros tantos instrumentos genuinamente característicos:

A viola de arame – De cinco ordens de cordas duplas, com uma afinação própria extremamente interessante e um toque original e primitivo;

O rajão – De cinco cordas simples, com a mesma configuração e menores dimensões, cuja peculiar técnica de execução nos é descrita por Carlos M. Santos:

“A execução é rasgada com o emprego dos dedos anular, médio e indicador, passando sobre todas as cordas num golpe de punho de cima para baixo – o rufo – alternado com outro golpe do polegar, de baixo para cima.”

O braguinha, machete ou cavaquinho – Cuja forma e características Ernesto Veiga de Oliveira identifica às do cavaquinho de Lisboa e que o mesmo Carlos M. Santos enaltece como “o mais discutido, o mais acarinhado, o mais mimoso e o mais interessante dos instrumentos madeirenses. Alegre e saltitante no som, gracioso nas formas que o tornam bibelot de estima, foi no século passado o enlevo das damas”. Na sua feição popular, toca-se essencialmente de “rasgado”, assumindo o carácter de instrumento cantante e “pontiado”, na sua faceta urbana.

O Saltinho ou Baile Pesado recriado e gravado pelo Maio Moço constitui um tipo de “baile em ritmo de cansado, cantado e tocado nas festas e arraiais madeirenses”, nas palavras de António Aragão, que o recolheu. Dadas as deficientes condições fonográficas do registo original e a execução inse­gura e pouco consistente dos informantes, vimo-nos constrangidos a recriar toda a parte cantada, que assume, assim, um carácter de certo modo conjectural, e a reconstituir, na sua quase totalidade, a parte instrumental, originalmente de contornos vagos e imprecisos.

Procurámos, entretanto, respeitar ao máximo as presumíveis características originais da canção, reproduzindo tão fielmente quanto possível toda a sua ambiência e sonoridade de inconfundível sabor local. As seis quadras utilizadas foram criteriosamente escolhidas e adap­tadas, com o propósito de referenciarem os três instrumentos mais típicos da região.
 

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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