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Algarve
Quer pela ausência de estudos aprofundados e sistemáticos quer por influência de factores de ordem
sociocultural, a imagem predominante do folclore algarvio deriva fundamentalmente de estandardizadas
e banalizantes demonstrações de vocação eminentemente turística.
Possuímos, ainda assim, elementos suficientes para afirmar que a tradição musical do Algarve nos revela
aspectos particularmente interessantes e variados, entre os quais devemos referir em primeiro lugar os
seus velhos e admiráveis romances e as suas abundantes e peculiares orações cantadas, de que Michel
Giacometti e Fernando Lopes Graça compendiaram alguns espécimes de rara beleza e indiscutível arcaísmo
e autenticidade.
As características canções coreográficas, nomeadamente os Bailes de Roda, os típicos Bailes Mandados
e o popular Corridinho constituem, entretanto, a sua faceta mais amplamente divulgada. Dançado
igualmente em diversas outras províncias, o Corridinho conquistou mesmo o estatuto de verdadeiro
símbolo do folclore algarvio. Reflectindo aspectos de natureza essencialmente urbana, parece apresentar
uma estrutura de Fado Corrido (circunstância de que provavelmente lhe advém o nome) e consta basicamente
de duas partes: o “corrido” propriamente dito e o “rodado”, orientado em sentido inverso do primeiro.
A despeito da inegável importância do Corridinho, a prodigiosa quantidade e diversidade de Bailes de Roda,
por vezes de feição bem característica, promovem este género à categoria de forma musical mais genuinamente
representativa da região. O nosso tipicamente saboroso Chegou e Bateu (incluído no CD “Estrada de Santiago”),
a que juntámos um refrão instrumental de nossa autoria à maneira do Corridinho, patenteia um peculiar fraseado
melódico-rítmico de gosto inconfundivelmente local.
Dada a insuficiente dimensão da letra original, que adaptámos muito ligeiramente, acrescentámos-lhe três
quadras de nossa criação, respeitando fielmente tanto a interessantíssima natureza formal de tipo paralelístico,
como o pitoresco carácter temático centrado na sucessiva enumeração de terras algarvias, numa sequência verbal
puramente lúdica.
Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996
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