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Vítor Reino

 

 

 

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Algarve

Quer pela ausência de estudos aprofundados e sistemáticos quer por influência de factores de ordem sociocultural, a imagem predominante do folclore algarvio deriva fundamentalmente de estandardizadas e banalizantes demonstrações de vocação eminentemente turística.

Possuímos, ainda assim, elementos suficientes para afirmar que a tradição musical do Algarve nos revela aspectos particularmente interessantes e variados, entre os quais devemos referir em primeiro lugar os seus velhos e admiráveis romances e as suas abundantes e peculiares orações cantadas, de que Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça compendiaram alguns espécimes de rara beleza e indiscutível arcaísmo e autenticidade.

As características canções coreográficas, nomeadamente os Bailes de Roda, os típicos Bailes Mandados e o popular Corridinho constituem, entretanto, a sua faceta mais amplamente divulgada. Dançado igualmente em diversas outras províncias, o Corridinho conquistou mesmo o estatuto de verdadeiro símbolo do folclore algarvio. Reflectindo aspectos de natureza essencialmente urbana, parece apresentar uma estrutura de Fado Corrido (circunstância de que provavelmente lhe advém o nome) e consta basicamente de duas partes: o “corrido” propriamente dito e o “rodado”, orientado em sentido inverso do primeiro.

A despeito da inegável importância do Corridinho, a prodigiosa quantidade e diversidade de Bailes de Roda, por vezes de feição bem característica, promovem este género à categoria de forma musical mais genuinamente representativa da região. O nosso tipicamente saboroso Chegou e Bateu (incluído no CD “Estrada de Santiago”), a que juntámos um refrão instrumental de nossa autoria à maneira do Corridinho, patenteia um peculiar fraseado melódico-rítmico de gosto inconfundivelmente local.

Dada a insuficiente dimensão da letra original, que adaptámos muito ligeiramente, acrescentámos-lhe três quadras de nossa criação, respeitando fielmente tanto a interessantíssima natureza formal de tipo paralelístico, como o pitoresco carácter temático centrado na sucessiva enumeração de terras algarvias, numa sequência verbal puramente lúdica.
 

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

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