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Vítor Reino

 

 

 

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Trás-os-Montes

Trás-os-Montes constitui, porventura, a província portuguesa que mais imune se manteve às influências descaracterizantes dos padrões de vida actuais, oferecendo-nos ainda hoje um folclore num estado de apreciável pureza e autenticidade.

O carácter notoriamente ancestral e genuíno transparece desde logo na grande originalidade das suas formas musicais, em que os instrumentos ligados ao ciclo pastoril assumem um inequívoco lugar de destaque, em torno da quase omnipresente gaita-de-foles. Este venerando e vetusto instrumento, que traduz ainda a sobrevivência de sensíveis rem­iniscências célticas, surge associado a diversas manifestações coreográficas de que não podemos deixar de salientar a singular dança dos paulitos, mas aparece também em trechos mais cerimoniais, como a alvorada que encerra o tema musical especialmente preparado pelo Maio Moço para representar a região.

Um dos aspectos mais surpreendentes do valiosíssimo folclore transmontano consiste na sua incrível abundância de romances, quer os que apresentam uma música própria quer aqueles que se apoiam em melodias típicas ligadas a certas tarefas agrícolas, como é o caso das impressionantes cantigas da segada, em que os ceifeiros desfiam lenta e cerimoniosamente um rosário quase inesgotável de velhos romances.

Não foi, pois, por acaso que o Maio Moço seleccionou o Dom Carlos d'Além Mar, romance novelesco do ciclo carolíngio, conhecido igualmente por designações como Dom Claros, Conde de Montalvar, Dona Mariana, Albaninha, etc., e cuja pre­sença na tradição oral de diversos países europeus nos é assinalada por Carolina Michaelis de Vasconcelos. Teófilo Braga refere que no século XVI “já era considerado romance velho” e Almeida Garrett afirma que “é das mais antigas composições deste género que temos em Espanha: nas províncias portuguesas é muito vulgar e sabido, e portanto abunda em variantes”.

Optámos por um arranjo de sabor clássico, introduzindo-lhe um refrão instrumental de nossa autoria e adoptando uma sequência harmónica algo complexa, de acordo com a riqueza da melodia original, desembocando num alegre toque de alvo­rada que se adequa à maravilha ao enredo do próprio romance. No que respeita à letra, seguimos de perto a versão original, corrigindo-a e adaptando-a a partir da confrontação de inúmeras variantes recolhidas.

Vítor Reino, in “Estrada de Santiago”, 1996

 

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