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Percurso
Quando,
em meados do século passado (bolas, como estou velho!), o meu pai me
ofereceu uma viola como prenda por ter terminado a 4ª classe, comecei as
minhas aulas de música. Logo que aprendi os primeiros acordes, e porque
o panorama musical da época necessitava de revitalização (!!!), formei
com alguns amigos um grupo que tocava as canções do “Conjunto António
Mafra”, na altura “na berra” – Ó Clarinha, O Carteiro,
O Baile da D. Ester, etc.
Pouco depois, tomei
contacto com “os Conchas”, que cantavam, em português, os grandes êxitos
da altura – Oh Carol, Adam and Eve, etc. e formámos “Os
Conchinhas”. Procurávamos ser, conforme o próprio nome indica, uma
espécie de “Juventude Conchista”, tendo feito a nossa 1ª apresentação na
RTP pela mão do Júlio Isidro (quem havia de ser…) em 1962.
Segue-se um conjunto
(designação que passados alguns anos caiu em desuso, sendo substituída
por banda), que animava os bailes populares e associações
recreativas: acordeão, contrabaixo (ou “rabecão”, como era vulgarmente
conhecido), viola electrificada com “pastilhas” e uma bateria com uma
tarola que tinha no seu interior uma lâmpada que, através de um
interruptor, mantinha a pele na tensão adequada – chamávamos-lhe, por
brincadeira, a “bateria eléctrica”. Só havia um microfone para o
vocalista e o som era reproduzido por 2 “cornetas” que ainda hoje são
utilizadas por alguns feirantes.
Por volta de 1965, formei
finalmente um grupo já com alguma qualidade, que fazia os chamados
“bailes de finalistas” e as primeiras partes de grupos de renome –
Sheiks, Quarteto 1111, Conjunto Académico João Paulo,
Pop Five, etc. O reportório baseava-se nos êxitos
anglo-americanos da época dos Beatles, Rolling Stones,
Byrds, Chicago, Blood Sweat and Tears, etc. Órgão “Farfisa”,
violas “Eko” e bateria “Premier”. Amplificadores “Vox” e vozes “Dynacord”,
com câmara de eco e tudo… – um espanto! Parecia um grupo a sério!
Assegurámos, durante
alguns anos, as noites de alguns casinos, o que me permitiu conhecer de
perto a maioria dos artistas de nomeada da altura. Aos poucos lá íamos
conseguindo melhorar o equipamento, passando a ter um órgão “Hammond” (o
“Rolls Royce” da época), com “Lesley” e tudo, violas e amplificadores
“Fender” e uma bateria “Ludwig”. Enfim, um verdadeiro luxo!
Este percurso foi
subitamente interrompido pela ida para Angola (1971), para cumprir o
serviço militar. Entre minas e emboscadas, formei com um camarada de
armas o duo mais famoso que havia em Zala – o Duo…Deno!
Numa noite de refrega, a
minha viola acabou completamente desfeita em bocados, o que, para grande
tristeza de toda a Companhia, contribuiu para acabar com a “promissora”
carreira daquele duo.
Foi nessa época que
comecei a ganhar alguma “consciência política” e a estabelecer um
contacto mais próximo com a chamada “música de intervenção” do Zeca
Afonso e Adriano Correia de Oliveira, entre outros.
Pouco depois, dá-se o 25
de Abril e a história passou a ser outra. Foi a descoberta de novos
horizontes, musicais e não só.
Pausa na música a sério,
para me dedicar a acabar o curso. Durante vários anos, dediquei-me
apenas a cantar no banho e a tocar para os móveis da casa.
Já nos anos 90, voltei a
dedicar-me à minha paixão inicial – a música portuguesa –, tendo
curiosamente retomado as minhas aulas de música interrompidas durante
todos estes anos. Passei a integrar um grupo amador de música
tradicional, na altura ensaiado pelo Vítor Reino. Este último acabou por
me convidar a integrar a “família” Maio Moço, onde tenciono reformar-me
quando a saúde já não me permitir aguentar a estrada e as noitadas.
E foi assim que, começando
na música portuguesa, terminei na música portuguesa. Fechou-se o
círculo!
Fausto Azul
Junho de 2005 |
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