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O homem que nesta fotografia segura a
guitarra portuguesa era meu avô. Não sei muito sobre ele, e era ainda
pequena quando morreu.
Mas há uma história que me contaram e
acerca da qual gosto de fantasiar.
Ele vinha de uma família humilde do
Alentejo. Diz-se que a mãe tocava uma espécie primitiva de harmónio a
que chamavam desdenhosamente “piano de cavalariça”. Como foi que ele
começou a tocar guitarra? não sei. Só sei que um dia viu a minha avó,
menina bonita, dona de um lânguido
olhar azul profundo … Ela era filha
única, nascida em Lisboa e criada com todo o esmero pela mãe e a uma
avó, senhoras com algumas pretensões que tocavam piano a quatro mãos. A
própria jovem tinha lições particulares de violino e tocava com
sentimento um bandolim enfeitado com embutidos de madre-pérola,
oferecido pelo seu pai.
Em breve o meu avô começou a fazer-lhe
serenatas à janela, como era costume da época. O amor, fortemente
contrariado pela mãe e pela avó, foi ficando cada vez mais sólido e, por
assim dizer, inevitável.
O meu avô comprometeu-se a completar a
4º classe antes do pedido de casamento.
E por fim casaram… tiveram vários
filhos e viveram felizes... enquanto a felicidade durou.
Hoje, quando pego no meu bandolim
gosto de pensar nos meus avós e em como a música foi sua cúmplice. Gosto
de pensar nas pessoas que viveram antes de mim e que nos deixaram a
poderosa herança da música. Não uma música de meros consumidores, mas
naquela que é feita de um modo singelo e genuíno por nós e que sabe
acordar no nosso íntimo a sensação de sermos deuses por alguns supremos
instantes…
Rita Reino
Julho de 2005 |